A enciclopédia que não devia funcionar
Em março de 2000, Jimmy Wales lançou a Nupedia, uma enciclopédia online com artigos revisados por especialistas em sete etapas obrigatórias. No primeiro ano, a Nupedia publicou 24 artigos. Vinte e quatro. A Britannica, fundada em 1768, levou 250 anos para acumular 120 mil artigos com uma equipe de especialistas contratados. Wales tinha um orçamento de startup e um processo que fazia uma reunião de condomínio parecer ágil (qualquer pessoa que já participou de uma reunião de condomínio entende o peso desse elogio).
Em janeiro de 2001, um programador chamado Ben Kovitz teve um almoço com Larry Sanger, parceiro de Wales, e sugeriu usar um “wiki” como espaço de rascunhos: qualquer pessoa edita, sem credencial, sem revisão prévia. Sanger achou péssimo mas jogou o wiki como um projeto paralelo sem grandes expectativas, chamado “Wikipedia”. Em uma semana, o projeto paralelo tinha mais artigos que a Nupedia inteira. Em onze meses, tinha 20 mil artigos. A Nupedia foi encerrada em 2003 com 24 artigos concluídos, o que significa que a Wikipedia publicou em uma semana o que a enciclopédia séria levou três anos para produzir.
Hoje a Wikipedia tem 7 milhões de artigos só em inglês, 7 bilhões de visitantes por mês e roda inteiramente por doações voluntárias (sem paywall, sem assinatura, sem anúncio). A Britannica vendeu sua última edição impressa em 2012, 32 volumes a US$ 1.400 cada. A lição não é “remova o controle de qualidade” (não faça isso). A lição é: às vezes o processo que você criou para garantir qualidade é exatamente o processo que está impedindo a qualidade de acontecer. Pense simples: o que no seu fluxo de trabalho existe para “garantir qualidade” mas na prática só garante lentidão?

